Pitty: em 2003, o que o rock nacional precisava

Posted by TRMB | Posted in | Posted on 22:57


Por Carlos H. Silva

--->>> O pontapé no traseiro que o rock nacional mainstream precisava

Nesta semana decidi expor minha opinião sobre um disco brasileiro nesta seção e que não fosse de heavy metal ou de hard rock; poderia então ter pegado algum debut daqueles clássicos das várias bandas grandes do rock nacional nos anos 80, porém me lembrei do álbum de estréia da cantora baiana Pitty e de como a cena do rock nacional estava na época, e o porque de ser uma referência durante aquele período.

Lançado em 2003, Admirável Chip Novo, foi um estouro comercial e deu um chute na bunda na cena mainstream do rock brasileiro. Enquanto bandas como Titãs e Capital Inicial se aproveitavam da glória de seus acústicos e viraram bandas de “bons moços”, ou o Barão Vermelho já estava mais pra lá do que pra cá, ou o Raimundos que havia perdido seu vocalista e voltado ao underground, parecia que a única banda que continuava realmente grande e com influência era o Charlie Brown Jr.

Produzido por Rafael Ramos, Admirável... é compacto, rápido e empolgante. São 40 minutos que parecem 20. Rock básico, guitarras distorcidas, influências de hard rock aqui, influências de hardcore ali, bastante coisa de rock alternativo acolá, com umas pitadas de new metal e grunge; temos que levar em conta que  Priscilla, a vocalista da Pitty (ela mesma diz que Pitty é o nome da banda), nasceu em 1977 e foi uma adolescente dos anos 90, estouro de toda essas influências.



Algo que chama bastante atenção são as influências literárias e letras inteligentes, algo que faz muita falta no rock nacional mainstream. O próprio título, por exemplo, veio inspirado no livro Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley. A ótima e grooveada faixa “O Lobo” evoca à Thomas Hobbes, com seu refrão “o homem é o lobo do homem”, e versa sobre a ganância do ser humano desde os tempos mais antigos.

Até achava que aqui batia um coração
Nada é orgânico, é tudo programado


Grande hit do disco, a pesada “Máscara” é só uma das faixas que critica os costumes da sociedade, as opiniões baseadas em preconceito e a falta de conhecimento, bem como “I Wanna Be” e “Só de Passagem”.





Priscilla é uma compositora que vai além do básico de criticar apenas por criticar, apenas porque é o que o jovem quer ouvir, ela sabe do que está falando e tem um conhecimento cultural de causa. É uma pessoa inteligente, que lê, se informa e traz toda essa influência para as suas composições. E acima de tudo, praticamente desenha para quem ouve suas composições para cada indivíduo buscar o melhor de si mesmo.

Tira, a máscara que cobre o seu rosto
Se mostre e eu descubro se eu gosto
Do seu verdadeiro jeito de ser


Um detalhe que traz uma dinâmica especial em algumas faixas do álbum são os grandes crescendos que algumas canções possuem – talvez seja dedo do produtor.

Por exemplo, a excelente Teto de Vidro, sabiamente escolhida para abrir o CD, tem seu auge por volta dos 2m40s (“na frente está o alvo que se arrisca pela linha...”) quando explode em um momento grandioso, com a cantora despejando toda sua fúria contra as pessoas que, numa interpretação comum, cuidam da vida dos outros.


A linda Equalize, com sua guitarra redhotchilipepperiada, é um dos pontos altos mostrando o lado romântico da cantora, compondo uma balada ao seu estilo. Conta ainda com a participação de Liminha tocando baixo.

O encerramento é com o hit Semana Que Vem, mais um chute na bunda - desta vez das pessoas que ficam esperando as coisas acontecerem e não agem; sonoramente, uma pancada com momentos de calmaria e um final empolgante. As faixas de abertura e encerramento foram, de novo, sabiamente escolhidas.

Rock básico, bem tocado, bem produzido; se por um lado, Pitty não é uma vocalista de primeira linha, ela compensa com letras inteligentes, crítica sem ranço de adolescência, sem querer ser adulto posando de jovem e com muita atitude - além de saber seus limites, em nenhum momento ela vai para onde sua voz não a permitiria ir. Com tudo isso, Pitty lançou um dos melhores discos de rock nacional da década passada. E quer saber? O sotaque baiano dela ainda dá um charme para as canções... mas isso é só uma questão de opinião.



Seis singles (Máscara, Admirável Chip Novo, Teto de Vidro, Equalize, Semana Que Vem e I Wanna Be) fizeram do debut um mega sucesso, recebendo disco de diamante, em uma época que a pirataria já começava a dividir espaço com o download digital.

A banda em Admirável Chip Novo:

Pitty - Vocal
Peu Sousa - Guitarra
Joe - Baixo
Duda - Bateria


Na frente está o alvo que se arrisca pela linha
Não é tão diferente do que eu já fui um dia
Se vai ficar, se vai passar, não sei
E num piscar de olhos lembro tanto que falei, deixei, calei
E até me importei mas não tem nada, eu tava mesmo errada
Cada um em seu casulo, em sua direção, vendo de camarote a novela da vida alheia
Sugerindo soluções, discutindo relações
Bem certos que a verdade cabe na palma da mão
Mas isso não é uma questão de opinião
Mas isso não é uma questão de opinião
E isso é só uma questão de opinião...

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